Episódio Final: A Linha M da VCR – A Nova Geração de Porta-Enxertos da Universidade de Milão
- LUBRIEL Pontalti
- 21 de mai.
- 5 min de leitura

Encerramos nossa jornada pela excelência da viticultura olhando para o futuro. Hoje, o palco é da inovação genética que une resiliência e qualidade. Neste episódio final, apresentamos a **Linha M da VCR**, uma série de quatro porta-enxertos desenvolvidos pela Universidade de Milão e que representam uma das respostas mais modernas aos desafios climáticos e edáficos da viticultura mundial. Conheça o **M1, M2, M3 e M4** e descubra qual deles tem o maior potencial para transformar a viticultura brasileira.
**A Origem da Linha M**
A série "M" nasceu nos anos 80 no Departamento de Ciências Agrárias e Ambientais da Universidade de Milão (DiSAA). O objetivo era audacioso: criar porta-enxertos que não apenas resistissem a condições difíceis (calor extremo, seca, salinidade), mas que também mantivessem, ou até melhorassem, a qualidade das uvas. Após anos de pesquisa e seleção, os genótipos foram registrados e confiados para a multiplicação e comercialização exclusiva da Vivai Cooperativi Rauscedo (VCR). O resultado é uma gama de porta-enxertos de última geração, prontos para enfrentar o clima imprevisível do século XXI.
**Os Quatro Pilares da Série M**
**M1: O Especialista em Qualidade e Calcário**
O M1 é a escolha certa quando se busca a expressão máxima da qualidade, especialmente em uvas tintas. Ele induz um vigor controlado, o que favorece a maturação completa.
- **Adaptação:** Alta tolerância a solos calcários (suporta até 30% de calcário ativo), com boa adaptação a terrenos compactos e secos. Deve ser evitado em solos ácidos.
- **Perfil:** Vigor contido, mas que promove uma maturação tecnológica e fenólica excepcional. É sensível à carência de Magnésio (Mg) e Boro (B), exigindo um bom manejo nutricional.
- **Destaque:** Ideal para vinhedos de alta qualidade varietal, onde o objetivo é extrair o máximo potencial da casta.
**M2: O "Coringa" Equilibrado e Eficiente**
Se você busca um porta-enxerto versátil, que perdoa diferentes tipos de solo e mantém um bom equilíbrio, o M2 é o mais próximo de um "coringa" na viticultura. Sua maior virtude é a excelente capacidade de absorver Magnésio do solo, um nutriente vital e frequentemente problemático.
- **Adaptação:** Muito versátil. Adapta-se bem a solos compactos, úmidos, secos e pedregosos, com tolerância de até 22% de calcário ativo. Tem um desempenho apenas aceitável em solos ácidos e salinos.
- **Perfil:** Induz vigor médio e tem uma excelente capacidade de regeneração do sistema radicular. É mais sensível à carência de Nitrogênio (N) e Boro (B), mas não costuma sofrer com falta de Mg.
- **Destaque:** A escolha mais segura para quem precisa de um porta-enxerto robusto e adaptável, que garante um bom equilíbrio vegetativo-produtivo.
**M3: O Domador de Solos Férteis**
O M3 tem uma assinatura muito particular: uma elevadíssima capacidade de absorver Potássio (K), que ele transfere para a copa, favorecendo a maturação. É um especialista em domar o excesso de vigor.
- **Adaptação:** Exigente. Tem melhor desempenho em solos compactos e com boa drenagem. É muito sensível a solos úmidos, secos, pedregosos e, principalmente, a solos ácidos.
- **Perfil:** Induz o menor vigor da série, o que é ideal para vinhedos muito férteis que precisam de controle vegetativo. Tem baixa sensibilidade à carência de K e Fe, mas é sensível à carência de Mg.
- **Destaque:** Um nicho muito específico: vinhedos em solos férteis, com pouco calcário, que precisam de controle de vigor e uma maturação acelerada pelo aporte extra de potássio.
**M4: O Campeão da Seca e da Salinidade**
O M4 é, sem dúvida, o representante da série M mais preparado para o futuro. A sua característica principal é uma **excepcional tolerância à seca e à salinidade**, dois estresses abióticos que mais desafiam a viticultura global.
- **Adaptação:** Desempenho espetacular em solos secos e salinos, onde outros porta-enxertos fracassam. Também se adapta bem a solos compactos e pedregosos. Seus pontos fracos são os solos úmidos e, principalmente, os solos ácidos.
- **Perfil:** Vigor médio, com um sistema radicular bem desenvolvido e boa capacidade de frutificação. A pesquisa mostrou que o M4 mantém altas taxas fotossintéticas mesmo sob estresse hídrico severo, com uma eficiência de uso da água superior a outras opções comerciais como o 101-14 MgT.
- **Destaque:** A escolha número um para regiões semiáridas ou com problemas de salinização, onde garante a sobrevivência e a produtividade do vinhedo.
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**Qual o Porta-Enxerto M mais Interessante para o Brasil?**
Para responder a essa pergunta, é preciso analisar a diversidade dos vinhedos brasileiros. O Brasil possui desde regiões de clima temperado e solos ácidos no Sul até o semiárido no Nordeste, onde a seca e a salinidade são desafios crescentes. Embora a série M ainda não possua estudos de campo de longa duração publicados no Brasil, podemos traçar um paralelo com base em suas características e nos desafios do país:
1. **Para o Vale do São Francisco (Semiárido):** O **M4** se apresenta como o candidato mais promissor. Sua alta resistência à seca e à salinidade são atributos essenciais para uma região onde a irrigação é obrigatória e o risco de salinização do solo é real. Ele tem o potencial de garantir a estabilidade produtiva em um clima cada vez mais quente e seco.
2. **Para a Campanha Gaúcha e regiões de clima temperado:** O **M2** surge como uma excelente alternativa. Sua versatilidade em diferentes tipos de solo (incluindo os mais úmidos do inverno gaúcho) e a eficiência na absorção de Magnésio o tornam uma escolha equilibrada. Já o **M1** seria uma opção de nicho para projetos de alta qualidade em solos bem drenados, onde se busca a excelência de uvas tintas como a Syrah, casta com a qual a série M já demonstrou grande afinidade.
3. **Um Alerta Importante:** A maioria dos porta-enxertos da série M tem baixa tolerância a solos ácidos (M1, M3 e M4). Considerando que grande parte dos solos vitícolas brasileiros são naturalmente ácidos, a adoção desses materiais exige uma correção cuidadosa do pH do solo e um manejo nutricional impecável. O **M2** é o único que apresenta uma tolerância um pouco melhor, sendo o mais indicado para começar os testes em áreas com esse perfil.
**Considerações Finais**
A série M representa um salto tecnológico na viticultura. São ferramentas de precisão que, quando usadas nos locais e manejos corretos, podem ser a chave para a sustentabilidade e a qualidade dos vinhos do futuro. O Brasil, com sua grande diversidade de climas e solos, tem muito a ganhar com a experimentação e a adoção desses novos porta-enxertos.
Esperamos que esta série de
tenha sido uma valiosa jornada de conhecimento para você. A escolha do porta-enxerto é a primeira e mais importante decisão na implantação de um vinhedo. Que estas informações sirvam como guia para construir raízes fortes e vinhos excepcionais. Até a próxima!
**Referências**
1. Vivai Cooperativi Rauscedo. Scheda Prodotto: Portinnesto M1.
2. Vivai Cooperativi Rauscedo. Scheda Prodotto: Portinnesto M2.
3. Vivai Cooperativi Rauscedo. Scheda Prodotto: Portinnesto M3.
4. Vivai Cooperativi Rauscedo. Scheda Prodotto: Portinnesto M4.
5. Battini Agri. (2020, 1 de junho). Quattro nuovi portinnesti per situazioni difficili.
6. MioVino. (2025, 6 de abril). I portinnesti serie M coniugano resilienza e qualità vino.
7. WinneNews. (2022, 28 de julho). "M rootstocks" are the answer to water stress and this summer's extreme temperatures.



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